CHEIRO BOM DE VIDA
(Dt 30,19)
Tua ressurreição percorre
Meus átomos, desejos e vácuos. (Buelta)
A ESCOLHA
Propuseram-me uma escolha: – Há lugar para você em qualquer um dos dois carros. Escolhe: Madrid ou El Espino. É sempre bom saber que há “lugar” para a gente. Segui o coração: – Eu vou para El Espino. Estávamos na ceia das 20h30; clima em tons de esperança sobre o amanhã da vida Redentorista. O convívio fraterno, a percepção das incoerências, os tempos fortes de hesitações e muita atenção ao inusitado de Deus haviam marcado aqueles dias.
Na manhã seguinte, após a Eucaristia de clausura do retiro, deram-me o lugar ao lado do motorista. – Você fez a escolha certa. Era a voz do Pe. Lasso, o motorista. Que delícia, menos quando o co-piloto estendia-lhe o isqueiro. Tínhamos à nossa frente nove horas de viagem varando uma imensidão de planície cor ocre, entre colinas e serras ao longe. Havia muito o que olhar.
Atrás, no mesmo carro, iam dois confrades espanhóis; participaram com os da Província de Lisboa dos “Exercícios Espirituais”. Reviram também colegas de estudos de tempos distantes. Comentavam o quanto o contexto de vida se alterara. É isto: a vida não pára.
Por uma hora ainda trafegamos por caminhos de Portugal, deixando Vila Nova de Gaia (Porto). Entre generalidades, caíam manifestações de como viveram os dias de retirantes. E nos pedaços da partilha relembravam frases, provocações, idéias.
CAMINHOS DE ESPANHA
Quando atravessamos a fronteira Portugal-Espanha, sem formalidades, Pe. Lasso, ex superior Geral nosso, puxou conversa. Temos uma afinidade afinada, em que pese termos a mesma idade. Respirando ares pátrios, falou-me direto: – Agora é com os Espanhóis. Vai dar certo. Os do banco de trás perceberam a proximidade e passaram a falar mais baixo, deixando espaço para nossas conversas. Que excelentes trocas! Lá e mais além, me apontavam o que não devia deixar de olhar. E quando a História da Espanha emergia, então a conversa era de todos. E os quilômetros devoravam o asfalto. Placas na autopista: Recuerdate 130. Ou Recuerdate 100. Quando paramos, foi para a refeição do dia. O clima à mesa aproximou os quatro. Um, tocado, expôs-se. Parte ético, parte gozador. No fundo, a alma se deixava fotografar qual neblina de um amanhecer interior. Ao final, um brinde à Congregação do Santíssimo Redentor!
Seguiu-se um intervalo. Lasso e seus cigarros. Eu e meu silêncio, olhando um mapa na parede: região de Castilla Y León em direção à fronteira com a região basca. A vida continuava deixando sentir seus odores. Fortes. Apetecíveis.
A SURPRESA
Viagem retomada. Plantações de cereais cobrem a fértil terra na Província de Palencia. Na altura, um cochicho entre os colegas. Um quê de mistério persistiu por vinte minutos. O motorista toma uma pista lateral de saída: SAN ISIDRO DE DUEÑOS. La Trapa. Uma construção românica. Mosteiro de Trapistas. Silêncio pleno num pátio imenso com árvores e bancos, quando estacionamos. A porta românica da igreja ao lado da grande construção me surpreende. Entramos por uma lateral, dando para a capela em semi-obscuridade. Austera, sem bancos. Alguém tateando a parede acende uma luz. Três faixas verticais se aclaram e nelas leio: ESPERA. Corro os olhos em 360 graus. Uma urna branca. – É o beato. Virei-me para o lado direito. Dei de frente com um painel de fundo. Uma foto tamanho natural: sorriso discreto e feliz, suave, naquele rosto jovem de um corpo bem formado e alto, vestido com o burel trapista. Irradia o inefável. – É o beato. Quem? – Hermano Rafael Arnaiz. Percebi-me mobilizado. Ajoelhei-me. Talvez, esperando. Já me aguardavam quando tocaram em meu ombro. Estava escrito: beatificado em 1992 por João Paulo II. Afinal, de quem se tratava? Saímos da capela, visitamos a grande igreja. Saímos e busquei a loja (Tienda) do mosteiro. Os monges fabricam licores e chocolate desde a Idade Média. Marcas de fama e qualidade. Indaguei o simpático monge atendente, meia idade, sobre o Beato. Apresentou-me alguns livros e a Obra Completa, 924 páginas, de boa edição. Pe. Lasso, ao meu lado, insinuou: – Não deixe de comprar. Vale à pena. Escolhi uma biografia (200 páginas) e as Obras Completas. Lasso fez questão de pagá-las, “um regalo”. Piscou dentro de mim: tem coisa aqui! O título da biografia: – Fascinado por el Absoluto. (Havia sido o tema da primeira palestra no retiro). Rememorei Thomas Merton que tanto apreciei e valorizo.
Algo estava remexido em mim. A vida! Esta que nasce do silêncio e se faz palavra redentora. Ficamos pelo pátio uns trinta minutos. Seria apenas o primeiro tempo de uma descoberta? Era abril, dia 4. Rafael Arnaiz nasceu a 9 de abril e falecera a 26 de abril. (1911-1938). Abril de uma primavera 2008 buscando acontecer. A páscoa da vida cantava em mim.
EL ESPINO
Continuando a viagem, desejei saber dos companheiros sobre Rafael Arnaiz. Gentis, disseram-me que no fim-de-semana (era sexta feira) teria eu bastante tempo para “degustar” o escritos do jovem trapista. Apenas me informaram que o Editorial Perpétuo Socorro (Província Redentorista de Madrid) publicara uma primeira edição completa das obras dele no ano da beatificação. Os sinos interiores repicam: aqui tem coisa boa. Ainda me deram esta frase: Deus servidor nosso em todo criado.
Chegamos a El Espino. Mosteiro-Santuário de N. Sra. Del Espino. Que panorama! Serras e ondulações verdejantes. Alturas. Construção portentosa. Séculos de história e fé, entre lendas e documentos, desde 1399. Nas origens (1410-1835), um El Espino beneditino. Monges eminentes, professores e escritores, artistas, cultivadores da terra. Três séculos de expansão do ora et labora, reza e trabalha, lema beneditino.
O século XIX, marcado pelas guerras de independência, expulsou os beneditinos. Apossaram-se os exércitos desta região e transformaram a Abadia em celeiro das forças revolucionárias e sede de um batalhão. Nesta fase, sumiram com a extraordinária biblioteca, o órgão de tubos, os sinos, os cavalos, as oficinas, os instrumentos agrícolas. A imagem da aparição foi salva pelos moradores do povoado (200) de Santa Gadea del Cid, a um quilômetro dali.
O El Espino Redentorista começa em abril de 1879. O prédio, posto em leilão, caiu em disputa entre dois interessados. Uma peleja. Aquele que levou a melhor imediatamente fez doação aos Redentoristas (franceses, então), “uma congregação jovem, dinâmica, fundada em 1732 na Itália”, diz o documento. E o atual folder do governo basco fala desta doação assim: “começou para o Santuário-mosteiro uma nova época de esplendor: restauração material e espiritual que invadiu toda a região”.
UM CENÁRIO DE CONTEMPLAÇÃO
Que patrimônio! Deve estar entre os cinco melhores da Congregação do Santíssimo Redentor. O pórtico da igreja é de estilo gótico florido. O claustro, o refeitório e a sala capitular são uma preciosidade. Paredes enormes. As pedras irradiam cores suaves. Do lado de fora, campos e campos ondulados, agora verdes plantações de trigo e batata. Um ambiente harmônico entre natureza e construção. Um gótico com marcas do estilo tardio da arquitetura de mosteiros. El Espino, outrora Seminário menor, é hoje Casa de Oração e de Encontros. Uma comunidade de oito veteranos Redentoristas atua na região. Pe. Lasso é o reitor. A vida, outra vez; agora, pedindo preservação e continuidade. Desafiando.
Neste cenário áspero e doce, povoado de lembranças, lugar do silêncio e da contemplação, aconteceram os quatro dias de exercícios espirituais. Uma vez mais, a vida a brotar da contemplação, revisada como Comunidade Apostólica pelos consagrados a Cristo Redentor nesta virada de época.
A LUZ DO CEGO
Tarde do primeiro dia de Retiro, segunda “charla”, às 16h30. Estou colocando o esquema no quadro. Ouço um “toc-toc-toc”. Da porta, avisto caminhando pelo largo espaço do claustro dois confrades. Um de bengala branca e suas batidas, abrindo caminho na densa escuridão branca; o outro por perto, atencioso. Coloquei-me à frente deles. Apresentei-me. Residem na mesma Comunidade (Valladolid) e vieram para o Retiro. Seguro na mão do confrade cegado: – Ah! Usted... Sorri. Puxa-me para um abraço. Diz: – Quero escutar o brasileiro. Disseram-me que está falando ao coração. Verdade? Toc... toc... se foi ele para a última fileira de cadeiras, ao fundo da sala. Tomei-o, nesses dias, como uma tela. Lia em seu rosto as reações ao meu dizer. Retenho nas retinas mais esta imagem da vida: a solidariedade fraterna daqueles dois. Mas o vigor e alegria do confrade cegado falam mais alto. Sabe sorrir num corpo sarado. Que lição! A vida, como Deus no-la propicia, oferece permanente proposta de transfigurações. O sorriso dele quando lhe disse que eu estava usando aparelhos pela surdez...
A VIDA QUE FAZ SENTIDO
Ao correr da vida, toques divinos. Viajar é preciso. Tudo é graça. Estas realidades recém vividas por mim são toques da graça nas teias da delicadeza de Deus para com seus servidores. Todos somos, se nos deixamos levar, levados às fontes interiores da vida em nós para que jorrem e fluam as águas da Copiosa Redenção. Permanece o paradoxo: você se (des)gasta e as forças se renovam ao mesmo tempo. Não há condições para esgotamento.
É provável que haja, na biografia de cada leitor(a), fontes aguardando o toque para fluir. Só o passar das águas de nosso território para o terreno cotidiano das relações, constitui a condição para as delicadezas de tais toques divinos, suscitadores em nós das fontes esquecidas. Vidas estancadas, fontes ocultadas.
Fontes de vida são o sentido para a vida, razões de viver e se alegrar, a missão de conviver e transformar as estruturas. Fontes de vida é o mesmo que “coração novo”, homens e mulheres novos, pois as estruturas, mesmo as recentes, envelhecem rápido nos tempos atuais.
Recebemos a vida e, fazendo caminho, percebemos os dons que ela encerra. Não há porque acomodar-se nem ser medíocre. Muito menos ser apressado pelas ambições que sempre se mostram urgentes. Dons são para serem cultivados. A jardinagem dos dons é arte espiritual. Agraciados fomos para uma missão. A missão reabre as fontes. Inova. Recria possibilidades.
A respeito de Rafael Arnaiz e seu segredo de vida, uma fonte se abriu para mim. Assunto de uma próxima conversa. Coisas do Mistério Divino em nós. Realidade mística. Como escreveu A. Heschel: “O que distingue o homem do animal é a infinita, impensável capacidade para o desenvolvimento de um universo interior”.
– Ah! Se me conhecêsseis!, exclamou Jesus certo dia na intimidade com os discípulos. Todos somos chamados a nos tornarmos “amigos de Deus”. É onde se situa a mística: nas moradas do ser.
A propósito, pergunto-lhe no estilo de Portugal: – Estás a viver à luz da Ressurreição tua vida diária? A sério?
Pe. Dalton Barros de Almeida, C.Ss.R.
Belo Horizonte, MG