No dia 20 de setembro, o Governo Geral da Congregação Redentorista se reuniu com os integrantes do Conselho Pastoral Paroquial (CPP) e com os Missionários Leigos Redentoristas (MLR) da Paróquia Nossa Senhora da Glória. De setembro a outubro, todas as Paróquias Redentoristas que pertencem à Província do Rio vão receber o conselheiro-geral, Pe. Jacek Dembek, polonês, que visita o Brasil pela quarta vez, e o seu acompanhante, Pe. Tadeu Pawlik, também polonês, que mora há cerca de 40 anos em Salvador (BA). Em entrevista ao Novo Tempo, os padres explicaram que o Governo Geral busca verificar o trabalho dos irmãos que vivem espalhados pelo mundo, além de reforçar e animar o exercício missionário.
NT: Qual o objetivo da visita do Governo Geral à Província do Rio?
Pe. Jacek: A tarefa do Governo Geral é animar toda a congregação. Como a congregação trabalha em 77 países do mundo, é difícil estar presente todo o tempo em todos esses países. Quero acrescentar que temos 87 províncias, vice-províncias, regiões e missões. Essa presença se realiza, entre outras formas, por meio de visitas. Cada unidade é visitada pelo menos uma vez em um sexênio. As visitas servem antes de tudo a um mútuo conhecimento: o governo geral quer conhecer a situação dos co-irmãos que vivem e trabalham aqui. Como se vive, como se trabalha, como se realiza a missão dos Redentoristas. Também queremos que os co-irmãos que vivem aqui conheçam a situação da congregação. Queremos compartilhar a vida e a missão. Passamos por todas as comunidades, nos encontramos com os co-irmãos, com os leigos, com as comunidades paroquiais. É um meio de animação. Trabalhamos em condições culturais e tradições muito diferentes, mas sempre somos Redentoristas, embora nosso carisma se expresse de formas diferentes. A presença do governo geral durante a visita tem como objetivo assegurar a unidade da congregação. É uma visita oficial, depois escrevemos um relatório ao Governo Geral, o padre superior geral escreverá uma carta oficial com as sugestões – o que fazer, o que mudar. É oficial, mas é uma presença fraterna para nos fortalecer, como São Paulo disse às comunidades cristãs que visitava: “eu venho para fortalecer nossa vocação cristã, nossa vocação missionária”.
NT: Vocês vão visitar todas as comunidades da Província do Rio. O que esperam deixar para cada comunidade como mensagem e o que esperam receber delas?
Pe. Jacek: O objetivo da visita geral não é uma avaliação individual das comunidades. Isso se faz durante a visita provincial. Nós queremos criar uma visão comum de toda a província. Província é criada por comunidade e em cada comunidade perguntamos como se faz a missão e como a congregação está presente nesses lugares: Juiz de Fora, Rio de Janeiro, Belo Horizonte.
NT: Como se encontra a situação da Congregação Redentorista no mundo de um modo geral?
Pe. Jacek: Pode-se responder em muitas dimensões, por exemplo, podemos falar da situação numérica. Antes do Concílio Vaticano II, havia 8.800 Redentoristas, agora, somente 5400. Podemos dizer que no sentido numérico caímos. Por outro lado vemos que nos últimos anos essa queda paralisou. Nos últimos anos, a cada ano, ordenamos mais sacerdotes. Nos anos 1980 ordenamos 60, 70 padres. No ano passado ordenamos 130 sacerdotes novos. Uma realidade muito forte é a missão nova na Rússia, onde era impossível proclamar o evangelho e agora há cinco comunidades. Em sentido de missão a Congregação cresce, porque temos iniciativas muito audaciosas. Como Redentoristas temos obras grandes no sentido numérico, podemos mencionar o Santuário de Aparecida onde milhões de pessoas vão a cada fim de semana; a Rádio Maria, na Polônia, que tem 7 ou 8 milhões de ouvintes todos os dias. Mas eu gosto de mostrar outra obra dos Redentoristas, pequena no sentido numérico, mas grande no sentido do coração e da fidelidade a nossa missão: em 2005 eu visitei os Redentoristas que trabalham na Costa do Marfim, na África: duas pequenas comunidade de dois e três redentoristas. Em um país dividido pela guerra há uma comunidade de dois padres e um irmão em território controlado pelo governo, e outra, controlada pelos rebeldes. Quando chegamos a essa comunidade controlada por rebeldes, foi terrível: eu vi o país totalmente destruído por guerra, nenhuma ordem, nem água, eletricidade, nada, todos os que podiam fugiram, escaparam e os Redentoristas, apesar de todo o bombardeamento, de violência, de falta de tudo, ficaram com a gente pobre. Quando eu falava com as pessoas, elas me diziam: “Não importa o que eles [padres] dizem, o que importa é a presença. A presença dos redentoristas, para nós, é o último sinal de esperança, mostra que somos humanos e não animais para serem mortos”. Digo isso porque acho que a situação da Congregação se descreve não tanto por êxitos numéricos, mas pela fidelidade à nossa missão e, se existe essa fidelidade, a Congregação continua a ir pelo caminho bom.
Pe. Tadeu: O peso numérico dos redentoristas vem diminuindo na Europa porque as famílias são menos numerosas e da família pequena não sai um religioso. O peso vai para América Latina, Ásia e África. São países que são futuro. A igreja está preocupada para estar presente na Índia, Ásia, África. Nós temos de nos preparar e conhecer essas culturas, esses costumes.
Pe. Jacek: Na verdade o número maior dos estudantes da Congregação está na América Latina. Na África a presença Redentorista é pequena porque há 320 professos redentoristas, mas 30% são estudantes. O futuro está no sul do mundo. A nacionalidade maior da congregação são os brasileiros. A província maior é a de Varsóvia, na Polônia. Mas a nacionalidade maior são os brasileiros, mais de 640. No entanto, quantos brasileiros trabalham nas missões fora do Brasil? No Suriname, são apenas 6. Isso é um desafio grande, porque a presença dos Redentoristas na Europa Ocidental e na América do Norte está desaparecendo. Todos os imigrantes para a Igreja são um grupo dos mais abandonados. Para os redentoristas há uma missão grande na Europa, na América do Norte, porque a Europa se torna mais secularizada, mais pagã. Vinte por cento dos europeus não têm nada a ver com religião. Há necessidade de re-evangelizar a Europa. Quem pode fazê-lo? Os missionários estão aqui. Nós sempre pensamos que a América Latina é uma país missionário no sentido de que os missionários vêm para cá. Mas não. Eu creio que a direção de missão deve mudar. Na América do Norte, de uma forma ou de outra, se fala de Deus. Mas na Europa não se pode falar de Deus, porque se diz que o Estado e a Igreja são separados. Eu creio que os missionários nascem aqui, agora.
NT: Quais os maiores desafios enfrentados pelo Governo Geral e de que forma a Província pode ajudar?
Pe. Jacek: O desafio principal para a Congregação é sempre a missão. A prioridade é formação, mas formação pra quê? Para a missão. Nossa prioridade e nosso desafio é proclamar o Evangelho aos mais abandonados. Vemos que os imigrantes são abandonados na igreja. Outro grupo de abandonados são os jovens, porque em muitos casos a Igreja não sabe falar com eles, não conhecemos a língua dos jovens. Vemos na congregação que, para o nosso futuro, a chave está na colaboração de todos os redentoristas. Temos que pensar no conjunto. Mas para essa colaboração é preciso mudar nossas estruturas. A congregação está em processo de reestruturação. Mas não falamos só em mudar as estruturas formais, antes de tudo, falamos em mudar as estruturas do nosso pensar, da nossa mente, porque se mudam as estruturas mas não muda o coração, se não existe a conversão de cada um de nós, será um fracasso grande. Essa reestruturação interna e externa é necessária para a missão responder às necessidades do mundo.
Pe. Tadeu: Essa colaboração significa que os redentoristas não se fecham só dentro da sua província, mas se abre para outras. No Brasil nós devemos ter um projeto comum, para a formação, para a evangelização, para as missões, que não fica só fechado no Rio, por exemplo. Por isso existe a União dos Redentoristas do Brasil (URB), os provinciais se reúnem e traçam projetos comuns.
NT: A Congregação Redentorista do Brasil tem algumas características, peculiaridades numa comparação a outras partes do mundo?
Pe. Tadeu: A Congregação Redentorista no Brasil, principalmente depois do Concílio, é menos clerical. O brasileiro é diferente do povo europeu. O povo aqui é mais sentimental, afetivo. Lá é povo formal. Também a maioria dos brasileiros é um povo pobre. Então nós nos sentimos em casa, porque nós fomos criados e fundados para os pobres, não só espiritual, mas materialmente. Na Europa, temos pobres imigrantes, explorados, mas aqui há pobres excluídos. O Brasil tem peculiaridades: o Redentorista de São Paulo é diferente do de Porto Alegre, de Minas, da Bahia, de Manaus. São diferentes culturas, nos outros países os Redentoristas não são tão variados. A religiosidade popular é muito forte aqui: devoção ao santos, ladainha, terços, festa. O povo faz com padre ou sem padre também, se não tem padre ainda melhor, que eles estão à vontade. Na Europa é impossível fazer uma festa sem permissão de padre. Aqui vem da história: irmandades, vicentinos, Legião de Maria, Apostolado da Oração, Confraria de São Benedito.
Pe. Jacek: A colaboração dos leigos com as estruturas da igreja, praticamente, na congregação, nasceu na América do Norte e aqui no Brasil. Mas existem duas características diferentes: na América do Norte nasceu pela falta do clero, ou os padres tiveram que indicar os leigos para participar. No Brasil os leigos quiseram participar, quiseram dar a mão, fazer algo. De toda a congregação, seguramente, aqui no Brasil esse sentimento de colaboração dos leigos é mais forte.
Pe. Tadeu: Até dizem que Minas Gerais foi evangelizada primeiro pelos leigos, chamados eremitas. A mesma coisa com Bom Jesus da Lapa. Na minha época eu ia a certas comunidades no sertão da Bahia uma vez por ano, porque não dava para ir mais, tinha época que não dava passagem, por causa das chuvas. Esse povo, durante um ano, fazia as suas festas, mantinha suas devoções. Aqui essa colaboração nasce entre os leigos, eles salvaram a presença do Evangelho.
NT: O que o senhor acha de um diálogo entre os Redentoristas e o clero secular, ou as paróquias diocesanas?
Pe. Jacek: Para nós, durante a visita geral, o mais importante é conhecer a vida dos nossos irmãos, mas sempre perguntamos como nossa paróquia se situa na realidade da diocese, como são as relações com outras paróquias. Para Santo Afonso, o clero diocesano pode nos ajudar como confessor, com serviço espiritual e com exemplo. Às vezes nos encontramos com o bispo, perguntamos, mas não entramos com toda a força nessas relações. Também entendemos que nossa paróquia tem que seguir um plano diocesano, plano de conferência dos bispos, então não podemos entrar tanto nisso. Queremos ver se nosso serviço é de fidelidade ao povo e à igreja local.
Pe. Tadeu: o Governo Geral não pode ir e ensinar o bispo e o clero diocesano, mas trabalha no sentido de colaborar e conviver bem. Fazendo as missões nós somos convidados pelos padres diocesanos. Eles escrevem: “Padre eu tenho 30 comunidades, 40, e queremos uma missão”. Se nós vivermos mal com os padres diocesanos, eles não nos convidam para as missões.
Pe. Jacek: Santo Afonso disse que é importante estar com o pároco diocesano durante as missões itinerantes, porque depois da missão o padre fica na paróquia, ele continua na comunidade. Há também uma tradição na Congregação, que nossas casas sempre servem aos sacerdotes diocesanos como lugar do retiro, refúgio e apoio espiritual. Graças a Deus que muitas províncias em nossas casas têm essa função. O clero diocesano aproveita essa oportunidade para estar conosco, rezar, fazer uns dias de retiro.
NT: Depois de conhecer rapidamente a Paróquia da Glória, primeira casa dos Redentoristas no Brasil, qual palavra o senhor deixa para animar o serviço?
Pe. Jacek: Tive uma grande impressão da reunião. Primeiro vê-se que todos se sentem co-responsáveis com o trabalho: o trabalho paroquial não é só dos padres, mas de toda a comunidade. Os agentes de pastoral deram o seu testemunho do que se vê que é um trabalho de comunidade. Estou impressionado com a participação e co-responsabilidade dos leigos: os setores importantes do trabalho paroquial ficam nas suas mãos. A eles uma palavra de agradecimento. As dificuldades sempre são presente. Elas não são problemas, são desafios e os desafios nos permitem crescer. Não tenhamos medo de participar, de dar sugestões, de avançar juntos. Seguramente se vê um espírito forte dentro da comunidade dos professos redentoristas e dentro das comunidade mais ampla dos professos leigos. Obrigado e força. Gostaria também de dizer uma palavra sobre as vocações. Dizemos que na América Latina há muitas vocações. Mas há um fenômeno: nas cidades grandes não temos vocações. É importante pensar que todos somos responsáveis para a missão da Igreja. No entanto, a missa não se celebra sem sacerdotes e os sacerdotes não vêm da lua, eles nascem das nossas famílias, caminham pelas ruas da cidade. Às vezes nós não temos a audácia de dizer a um jovem ou a uma jovem “Talvez você poderia pensar em seguir esse caminho, talvez seja essa a sua vocação”. Podemos ser anjos de Deus. Deus tem os seus caminhos, mas em geral fala conosco por outras pessoas. Um dia um sacerdote me perguntou: “Você nunca pensou em ser sacerdote?”. Foi esse o primeiro momento em que comecei a pensar nessa possibilidade. Então quero dizer como uma palavra de incentivo: que trabalhemos juntos a vocação: vocações dos leigos, convidemos outros, mas também, não tenhamos medo de provocar e de buscar esse pensamento de ser religioso, de ser sacerdote. Os futuros religiosos e sacerdotes vivem aqui.