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Antônio Henrique Weitzel - Coroinhas da Glória dos anos 30 e 40

A turma era numerosa e animada. Havia o Rubinho (Rubens Báldi), o Zé Cunha, o Geraldo Saraiva, o Geraldo Santana, o Mário Pinto, o Francisco de Assis (mais ligado ao Colégio Santa Catarina), o Aloísio Faria, os dois irmãos Moraes (Paulo e Hélcio), os três irmãos Weitzel (Paulo, Antônio e João) e outros cujos nomes agora me escapam. Todos sob o comando do irmão Julião, ao depois coadjuvado pelo irmão Pancrácio. Variavam bastante a idade e os tamanhos. Daí não haver batina na medida certa para todos. Quem chegasse primeiro escolhia uma que servisse. Mas a coisa se complicava para os últimos, porque sobravam apenas as menores. A gente usava então do seguinte expediente: vestia a primeira – que mal chegava aos joelhos – e enfiava outra batina – que cobria as pernas – e amarrava-a na cintura pelas mangas, parecendo então uma batina comprida. A sobrepeliz cobria toda aquela marmota e por cima ainda vinha o capuz. E assim vestidos se apresentavam todos para as cerimônias litúrgicas. As batinas e os capuzes eram de várias cores: a preta, a mais usada; a azul, no mês de maio e festas de Nossa Senhora; a vermelha, no mês de junho e festa de Pentecostes; a verde, nos domingos comuns, acompanhando as cores dos paramentos do celebrante da missa.

COROAÇÃO – No mês de maio, depois da coroação de Nossa Senhora, aos domingos, descia a turma toda em correria até o Salão de São Geraldo, que ficava do outro lado da Avenida dos Andradas. Lá esperávamos ansiosos os cartuchos de bala distribuídos pelos catequistas aos anjos e às virgens da coroação e também aos coroinhas. Uma alegria geral.

PRESÉPIO – No mês de dezembro, saía todo o bando com o irmão Julião para o parque do Museu Mariano Procópio, a fim de apanhar musgo para enfeitar o presépio armado no presbitério em frente ao altar do Sagrado Coração. Era uma aventura subir nas árvores e nos coqueiros para a retirada dos musgos, que eram ensacados e levados sob grande farra para a igreja da Glória. Não sei se hoje seria permitida essa retirada de plantas naquele local.

PROCISSÃO – Nas procissões, geralmente iniciadas no Colégio Santa Catarina, iam três coroinhas na frente: um com a cruz e os outros dois com as lanternas, abrindo a procissão, e o resto da turma seguia no final, na frente do andor, acompanhado pela banda de música a executar os dobrados próprios. Certa feita, o irmão Julião flagrou o Zé Cunha remendando o tocador de trombone atrás: estufava as bochechas e movimentava os braços, e todo o mundo rindo. Pegou o engraçadinho pela orelha e retirou-o do meio do grupo, mandando-o de volta para a igreja. Daí em diante, como castigo, tinha de vir sempre isolado na frente, abrindo a procissão.

MISSAL – Durante a celebração da missa, após o padre – naquela época de costas para o povo – ler a epístola no missal posto à sua direita, o coroinha devia subir os degraus do altar, pegar a estante com o missal, descer e subir novamente os degraus, passando para o lado esquerdo do celebrante, depositando no altar a estante com o missal para a leitura do Evangelho e do resto da missa. Uma vez, o João, ainda muito pequeno, retirou com dificuldade aqueles objetos de cima da mesa do altar, desceu e subiu os degraus e ficou tentando colocar o missal sobre o altar, mas não dava altura. Então o celebrante, o missionário redentorista Padre Geraldão, vendo que o menino não ia mesmo conseguir completar a tarefa, virou-se para ele e pegou-o por debaixo dos braços, levantando-o do chão até ao nível do altar, para que ele pudesse, enfim, colocar ali a estante com o missal.

COMUNHÃO – A comunhão era dada aos fiéis na mesa da comunhão que ficava abaixo dos degraus do presbitério. Todos se ajoelhavam, punham as mãos sob a toalha branca ali estendida e recebiam sobre a língua a hóstia consagrada, ficando o coroinha ao lado do padre, segurando a patena debaixo do queixo do comungante. Certa feita, distribuía a comunhão o padre Noronha, um redentorista de nacionalidade portuguesa. Chegou defronte de uma senhora que só abria a boca, mas nada de pôr a língua para fora. Com certeza, ela estava achando feio mostrar a língua para o padre. E o padre Noronha ali parado, esperando. Até que ele perdeu a paciência e falou bem alto para a comungante: “Espicha a língua, minha filha!”

VINHO – Periodicamente havia missa na capela de Santa Terezinha, que fica nas dependências do quartel da Polícia. Quase sempre quem ali celebrava era o velho padre Jerônimo. Só que ele – não sei por qual razão – não podia tomar vinho, só o mínimo necessário para cumprir os dispositivos litúrgicos. Todos os coroinhas gostavam de ajudar aquela missa. E por um motivo muito simples. Já que o padre tomava pouquíssimo vinho, quando preparávamos o material da missa, enchíamos o vidrinho até quase transbordar. Resultado: praticamente sobrava o vinho todo, que a gente, feliz da vida, saboreava furtivamente na sacristia da capela, antes de voltar para a igreja.

VELA – De vez em quando, o irmão Julião se dedicava ao fabrico de velas para abastecer os altares da igreja da Glória. A “fábrica” fica num pátio interno atrás da segunda sacristia, bem ao pé de uma escadaria que levava para o jardim, horta e bosque do convento, ciosamente guardados por um cachorrinho danado para dar corrida e mordes os meninos que se arriscassem a atravessar o portão. Quando alguns coroinhas chegavam para ajudar o irmão naquela tarefa, já encontrávamos a cera derretida dentro de uma lata de querosene de 50 litros sobre um fogareiro. A técnica era a seguinte: a gente mergulhava rapidamente o pavio encerado dentro da lata de cera derretida e retirava-o depressa, pendurando-o num preguinho fixado numa tábua. Cada pavio, um mergulho na cera e pendurava no preguinho e assim por diante até correr todos os pavios. Então, recomeçava-se do primeiro, para mergulho de uma nova camada de cera, até o derradeiro pavio. E a coisa prosseguia pacientemente, até que o irmão Julião julgasse estarem as velas na grossura ideal para uso nos altares. Essa técnica era para as velas ficarem mais consistentes, com finas camadas de cera sobrepostas. Se a gente demorasse muito tempo no mergulho do pavio na cera líquida, a vela ficava grossa logo, mas derretendo-se facilmente e, dessa forma, não servia. Conto isso para mostrar que coroinha do meu tempo não se limitava a ajudar missa. Também exercíamos prazerosamente várias tarefas ligadas ao culto religioso.

O que se tornaram na vida aqueles meninos? Deles saíram padres, professores, advogados, delegado, tabelião e outros profissionais. Mais de um já foi até chamado por Deus para acolitar a missa celeste que se prolongará por toda a eternidade. Os restantes, que ainda têm cabelos, peregrinam por aí, exibindo uma gloriosa cabeça branca.


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Em nossas longas jornadas, costumávamos almoçar em casas de pessoas bondosas que se prontificavam em fornecer almoço para os jovens e famintos caminhantes. Isto aconteceu mais de uma vez na pacata cidadezinha de Jeceaba (MG), aquela cuja luz elétrica, naquele tempo, tinha a potência de uma vela de bolo de aniversário. A cidade ficava a mais de 20 quilômetros de Congonhas, trecho esse que percorríamos a pé, ida e volta.

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Não era costume do Diretor, o sisudo padre Gregório Wuts, ficar, na hora do recreio, no meio dos juvenistas, o que sempre ocorria com os padres sócios.

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Quando veio da Holanda para o Brasil, passou por Congonhas. Lá, um belo dia, foi celebrar missa no Santuário do Senhor Bom Jesus, hoje Basílica. Na hora do ofertório, apesar da penumbra que envolvia o altar-mor, percebeu uma cor diferente no vinho que o coroinha estava despejando no cálice. E pensou: “Deve ser vinho branco”, que também era válido para a celebração.

Antônio Henrique Weitzel - A furiosa ´enfurecida`
Todo educandário que se preze tem uma banda de música, não só para aprimorar os dotes musicais de seus alunos, como, e principalmente, para abrilhantar as suas festas. O nosso Juvenato não seria uma exceção. Tínhamos uma boa banda de música, chamada carinhosamente por nós de “Furiosa”, composta de perto de 20 instrumentos de sopro e percussão.

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Antônio Henrique Weitzel - Os Extremos não se tocam
O aviso foi dado à noite: “Amanhã bem cedo, vamos cantar numa missa na capela da Fazenda do Pombal. O café será servido lá, após a missa.”

Antônio Henrique Weitzel - O Castigo da Gula
No mês de junho, entrávamos de férias. Mês gostoso das laranjas, mexericas e limas. Estávamos sempre visitando, a convite, as chácaras de pessoas amigas: ora na Fazenda São Simão, da dona Nora, irmão do bispo redentorista Dom Muniz, ora no sítio dos pais de nosso colega Juventino. Desta vez, fomos para a chácara dos pais de nosso colega André. O dia inteiro nos divertindo e chupando laranjas. Na volta, a gente costumava trazer nos bolsos uma ou duas laranjas, para serem chupadas na caminhada de volta ou então na penúria do dia seguinte.

Antônio Henrique Weitzel - O Coro X (Xis)
Quando chegavam os alunos novatos no Juvenato, eles eram testados pelo Padre Inácio – o maestro do coro – a fim de serem distribuídos pelas vozes: ou soprano (se conseguissem atingir notas mais agudas) ou contralto (se tivessem mais facilidade com as notas mais graves). Quem não fosse apto para uma delas, não fazia parte do coro: ficava no Coro Xis, isto é, de fora.

Antônio Henrique Weitzel - O Rio e o Tempo
As canções que se cantam na infância e também os poemas que se recitam no verdor dos anos jamais serão esquecidos. Esta é a verdade mais verdadeira que já ouvi.

Antônio Henrique Weitzel - Nos tempos do ´Lationário`
Eu ainda não completara sete anos e já estava inscrito como coroinha da Igreja da Glória. Eu e outros meninos de minha idade, que não sabíamos ainda as respostas latinas da missa, ficávamos de “estaca”, isto é, sem a responsabilidade de responder aos versículos e salmos do celebrante, que os coroinhas mais velhos e experientes assumiam.

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