Antônio Henrique Weitzel - Heroísmo inútil
Num de nossos passeios, de volta para casa, partindo da cidadezinha de Burnier, já caminhávamos há mais de duas horas, quando chegamos às margens do Rio Maranhão, perto de Congonhas. Agrupamo-nos nas cabeceiras de uma ponte pênsil sustentada por cabos de aço, antes da travessia do rio. Eis que o padre sócio, que vinha no final da fila, falou preocupado: - Um menino ficou para trás (certamente para "tirar água do joelho") e ainda não retornou. Acontece que o garoto, o Birosquinha, já havia voltado e se integrado ao grupo, mas o padre não percebera. Daí a preocupação. E mandou que três maiores voltassem para procurá-lo. Apresentamo-nos os três: o José Cândido Barbosa, o Moisés Vilaça e eu.
O padre sócio deu o apito para o José Cândido e iniciamos a volta à procura do perdido que não se perdera coisa nenhuma. E o resto da turma atravessou a ponte e retornou ao Juvenato. Devia ser umas 5 horas da tarde, quando encetamos o retorno pelo mesmo caminho por onde viéramos. Não era estrada: era trilho. Íamos em fila indiana: o Moisés na frente, o José Cândido no meio e eu atrás. O José Cândido apitando e nós dois gritando. E subimos morro, e descemos morro, e atravessamos córrego, e varamos planície, e nos embrenhamos na mata, sempre apintando e gritando, incansáveis.
Foi ficando tarde. Escureceu. Nossa sorte foi uma lua cheia, que parcamente iluminava os nossos caminhos. A cachorrada das fazendas ao longe iniciava uma latomia cada vez que ouvia os nossos gritos e apitos. E nada de menino perdido. E fomos andando em direção a Burnier, de onde saíramos lá pelas 3 horas da tarde. Ao passarmos por um rancho abandonado, o Moisés, com muita sabedoria e prudência, retirou uma escora de pau de uma parede e foi caminhando com aquele baita porrete nas costas, nossa única defesa.
Já era perto de 8 da noite, quando, cansados e famintos, fomos bater à porta da casa de uma família que nos acolhera durante o dia. A dona de casa, surpresa e penalizada, recebeu-nos carinhosamente e ouviu a nossa história: estávamos à procura de um garoto que se desgarrara do grupo e que, para nós, estava perdido. O padre tinha mandado que voltássemos para procurá-lo, mas nós havíamos feito todo o caminho de volta e não encontráramos ninguém. A boa senhora nos preparou um jantar rápido, enquanto seu esposo telefonava para Congonhas, pedindo que os padres mandassem um carro nos apanhar, já que os três estávamos sem condições de voltar a pé.
E, de fato, lá pelas 10 da noite, chegava o Assunção dirigindo o automóvel que viera nos pegar e trazendo a notícia de que o garoto já estava segundo no Juvenato. Agradecemos a acolhida e partimos de volta, mortos de cansaço. Devia ser quase meia-noite quando chegamos em casa. Todos já estavam dormindo, menos o padre diretor, que nos pregou um sermão. Não era para a gente voltar até Burnier; era apenas para procurarmos, nas imediações de onde havíamos parado pela última vez. Tínhamos extrapolado a ordem. E ainda fomos dormir de "orelhas quentes". De manhã, ainda tivemos de agüentar a gozação dos colegas, que continuou meses depois, como passo a relatar.
Na festa do diretor, o Paulo Gralatto, da minha turma, exímio desenhista, para enfeitar as paredes do refeitório, desenhou uns cartazes retratando os acontecimentos mais marcantes do ano. Como não poderia deixar de ser, lá estava o nosso: três bobos atravessando uma floresta cheia de bichos pavorosos escondidos atrás de cada árvore – na frente ia Moisés com o porrete nas costas, no meio o José Cândido, apitando feito um doido e, no final, ia eu, olhando apavorado para trás, para não sermos apanhados de surpresa por alguma fera faminta.
E pensávamos que tínhamos feito um ato de heroísmo, digno dos maiores elogios, e só fomos motivo de censura e chacota!
* Esta crônica escrevi-a hoje, dia 31/08/2006, em homenagem ao Padre José Cândido Barbosa, falecido ontem e que foi meu companheiro naquela busca inútil a um garoto que não se perdera e, por isso mesmo, não poderia ser achado. Mas fizemos a nossa parte. Padre Barbosa, que Deus o tenha em sua glória!
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Quem não a conheceu na Paróquia desde a segunda década do século passado até os anos 80? Catequista de todos nós, no quintal de sua casa na rua dos Artistas. Ali aprendíamos sobretudo um amor muito grande à Eucaristia. Ela sabia lidar com as crianças, servente que era do Jardim da Infância Mariano Procópio. Tinha uma profunda vida espiritual, alicerçada na oração, que aprendera com os Redentoristas, sobretudo Vicente Zey e Bonifácio van Germer.
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Em nossas longas jornadas, costumávamos almoçar em casas de pessoas bondosas que se prontificavam em fornecer almoço para os jovens e famintos caminhantes. Isto aconteceu mais de uma vez na pacata cidadezinha de Jeceaba (MG), aquela cuja luz elétrica, naquele tempo, tinha a potência de uma vela de bolo de aniversário. A cidade ficava a mais de 20 quilômetros de Congonhas, trecho esse que percorríamos a pé, ida e volta.
Antônio Henrique Weitzel - Coroinhas da Glória dos anos 30 e 40
A turma era numerosa e animada. Havia o Rubinho (Rubens Báldi), o Zé Cunha, o Geraldo Saraiva, o Geraldo Santana, o Mário Pinto, o Francisco de Assis (mais ligado ao Colégio Santa Catarina), o Aloísio Faria, os dois irmãos Moraes (Paulo e Hélcio), os três irmãos Weitzel (Paulo, Antônio e João) e outros cujos nomes agora me escapam. Todos sob o comando do irmão Julião, ao depois coadjuvado pelo irmão Pancrácio. Variavam bastante a idade e os tamanhos. Daí não haver batina na medida certa para todos. Quem chegasse primeiro escolhia uma que servisse.
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Todo educandário que se preze tem uma banda de música, não só para aprimorar os dotes musicais de seus alunos, como, e principalmente, para abrilhantar as suas festas. O nosso Juvenato não seria uma exceção. Tínhamos uma boa banda de música, chamada carinhosamente por nós de “Furiosa”, composta de perto de 20 instrumentos de sopro e percussão.
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Como coroinha “titular” na capela do Colégio Santa Catarina, lembro-me de muitas estórias. Um delas. Acontecera, na cidade alguns roubos de vasos sagrados, com arrombamento de sacrários. 0s padres redentoristas eram os capelães do Colégio. Preocupado, Pe. Geraldo, com seus mais de 100 quilos e um vozeirão que dispensava muitos microfones, chamou a Irmã Gertrudes.
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Antigamente, a missa da Novena Perpétua de São Geraldo era celebrada no próprio altar do santo, às seis horas da manhã. Aliás, esse era o horário das primeiras missas do dia. Digo primeiras, porque não só se celebrava no altar-mor de Nossa Senhora da Glória, como, concomitantemente, nos quatro altares laterais: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Sagrado Coração de Jesus, Sagrada Família e São Geraldo. Havia celebrante e coroinha em número suficiente para todas essas missas ao mesmo tempo.
Antônio Henrique Weitzel - Os Extremos não se tocam
O aviso foi dado à noite: “Amanhã bem cedo, vamos cantar numa missa na capela da Fazenda do Pombal. O café será servido lá, após a missa.”
Antônio Henrique Weitzel - O Castigo da Gula
No mês de junho, entrávamos de férias. Mês gostoso das laranjas, mexericas e limas. Estávamos sempre visitando, a convite, as chácaras de pessoas amigas: ora na Fazenda São Simão, da dona Nora, irmão do bispo redentorista Dom Muniz, ora no sítio dos pais de nosso colega Juventino. Desta vez, fomos para a chácara dos pais de nosso colega André. O dia inteiro nos divertindo e chupando laranjas. Na volta, a gente costumava trazer nos bolsos uma ou duas laranjas, para serem chupadas na caminhada de volta ou então na penúria do dia seguinte.
Antônio Henrique Weitzel - O Coro X (Xis)
Quando chegavam os alunos novatos no Juvenato, eles eram testados pelo Padre Inácio – o maestro do coro – a fim de serem distribuídos pelas vozes: ou soprano (se conseguissem atingir notas mais agudas) ou contralto (se tivessem mais facilidade com as notas mais graves). Quem não fosse apto para uma delas, não fazia parte do coro: ficava no Coro Xis, isto é, de fora.
Antônio Henrique Weitzel - O Rio e o Tempo
As canções que se cantam na infância e também os poemas que se recitam no verdor dos anos jamais serão esquecidos. Esta é a verdade mais verdadeira que já ouvi.
Antônio Henrique Weitzel - Nos tempos do ´Lationário`
Eu ainda não completara sete anos e já estava inscrito como coroinha da Igreja da Glória. Eu e outros meninos de minha idade, que não sabíamos ainda as respostas latinas da missa, ficávamos de “estaca”, isto é, sem a responsabilidade de responder aos versículos e salmos do celebrante, que os coroinhas mais velhos e experientes assumiam.