Manga-sapatinho x manga-coquinho - Antônio Henrique Weitzel
A Congonhas do meu tempo era uma cidade coberta de mangueiras, e os terrenos do Santuário, do Convento e do Seminário não podiam deixar de tê-las. Esta árvore frutífera, de porte geralmente elevado e de densa folhagem, que chega a impedir o nascimento de qualquer outra planta, mesmo capim, debaixo de sua copa, é originária da Índia (donde o seu nome científico: Mangífera Índica, Lineu). Aqui no Brasil tão bem se aclimatou, que vegetou por todo o território nacional, de norte a sul. Informa-se existirem mais de 600 espécies desta planta. Seu fruto, de polpa amarela e carnuda, é muito saboroso e rico em terebintina. As mais conhecidas dessa incrível variedade da fruta são: Carlota, Coco, Coração-de-Boi, Espada, Rosa, Sapatinho, Ubá, todas possuindo o mesmo valor nutritivo e medicinal. Apesar de bastante apreciada, o povo tem a manga como fruta indigesta, principalmente após as refeições e para pessoas com problemas intestinais e hepáticos. É tabu: faz mal misturar manga com leite ou com cachaça, é veneno. Mas usa também as suas folhas, de consistência dura, em chás contra tosses e bronquites. O cozimento das cascas e das folhas combate cólicas e diarréias rebeldes.
As mangas que mais encontrávamos naquela época eram: manga-coração-de-boi, manga-sapatinho e manga-coco. O mangueiral da primeira estava confinado no pomar, ciosamente cultivado e guardado pelo Inhô, velho hortelão e jardineiro do convento. O fruto era uma manga polpuda, praticamente sem fibras e que nos era distribuído no tempo das mangas.Seu nome derivava de seu formato: parecia um grande coração. A segunda se espalhava pelos pátios internos. O formato era de um sapatinho, donde o nome. A árvore crescia muito, e era trabalhoso apanhá-la: só com bambu ou trepando-se nela e sacudindo os galhos. Mas não compensava o esforço, pois, embora doce, era uma manga cheia de fiapos, que ficavam agarrados nos dentes da gente, obrigando a puxá-los um a um, uma trabalheira infernal. Já a terceira árvore, de pequeno porte, ficava num pátio interno, entre o refeitório do seminário e o prédio do convento. O fruto era redondo como uma bola de golfe, docinho e quase sem fibras e bem na altura das mãos. Uma tentação nas horas vagas... Só que a mangueira era cuidadosamente vigiada pelo Irmão Eusébio. Quando a gente pensava que ele estivesse distraído, começava a derrubar a tal manga. Ouvindo o barulho, o Irmão Eusébio corria a espantar a meninada:
- Lá, meninos!... Não podem chupar desta manga. Ela é dos padres. Vão apanhar manga-sapatinha, que tem muito fiapo e agarra nos dentes dos padres.
E punha a turma a correr. Então, tinha-se mesmo de contentar-se com a manga-sapatinho. Só quando a vontade era muito grande é que procurávamos a manga-sapatinho, apesar do trabalho que dava antes e depois.
Fora de Congonhas, nunca mais encontrei a gostosa manga-coração-de-boi: graúda, polpuda e isenta de fiapos. Hoje em dia se vê muita manga no comércio e, à exceção da manga-ubá e manga-espada, a maioria delas carregam nomes de gringos, como: harden, palmer, tommy, em lugar de nomes pitorescos, quais sejam: carlota, coquinho, coração-de-boi, espada, rosa, sapatinho.
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Setembro, mês do Jubileu, mês das férias, mês dos ventos soprando para cima; mês, pois, dos papagaios. Não daquelas aves psitaciformes palradoras, de bico de torquês e de língua escura, carnuda e córnea na superfície, o que lhes facilita imitar a fala humana. Leia mais...
Leitura à mesa - Antônio Henrique Weitzel
Durante as refeições (almoço e jantar) era costume no Juvenato (como, aliás, em todas as casas religiosas) que, enquanto todos se alimentavam, um juvenista, previamente escalado, fazia em voz alta uma leitura espiritual, assentado em uma cátedra encostada numa parede bem no centro do refeitório.
Manga-sapatinho x manga-coquinho - Antônio Henrique Weitzel
A Congonhas do meu tempo era uma cidade coberta de mangueiras, e os terrenos do Santuário, do Convento e do Seminário não podiam deixar de tê-las. Esta árvore frutífera, de porte geralmente elevado e de densa folhagem, que chega a impedir o nascimento de qualquer outra planta, mesmo capim, debaixo de sua copa, é originária da Índia (donde o seu nome científico: Mangífera Índica, Lineu).
Antônio Henrique Weitzel - Bocejo contagioso
Depois de algum tempo no Brasil, aprendendo a língua portuguesa, o padre Canísio foi designado para ser professor de História Sagrada no Juvenato. Ainda muito inseguro no falar a língua portuguesa, o risonho sacerdote começou o seu trabalho junto à meninada.
Antônio Henrique Weitzel- Cidade sem calças
Padres redentoristas, recém-chegados da Holanda, costumavam tirar as primeiras semanas no Brasil, para visitarem todas as casas da então Vice-Província do Rio de Janeiro.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Questão de imagens
As Irmãs de Santa Catarina acabaram de construir a belíssima capela. Um pouco destoante do conjunto arquitetônico do Colégio, como me falou o Pe. Bonifácio van Germert, mas bela, funcional, ampla. No primeiro momento, sem imagem alguma, talvez porque o artista que as estava fazendo não concluíra seu trabalho.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Liga católica
Era maravilhosa, no quarto domingo de cada mês, a reunião da Liga Católica de nossa Igreja da Glória. Às duas horas da tarde, com seus prefeitos e estandartes de cada seção, a igreja ficava cheia. Perto de 1000 homens maduros e de fé. E ninguém dormia, apesar da hora, pois a movimentação era intensa e os cânticos vibrantes: “Viva Jesus, a nossa Liga o brada. Viva Jesus, a nossa Liga o quer.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Dona Gertrudes, a catequista
Quem não a conheceu na Paróquia desde a segunda década do século passado até os anos 80? Catequista de todos nós, no quintal de sua casa na rua dos Artistas. Ali aprendíamos sobretudo um amor muito grande à Eucaristia. Ela sabia lidar com as crianças, servente que era do Jardim da Infância Mariano Procópio. Tinha uma profunda vida espiritual, alicerçada na oração, que aprendera com os Redentoristas, sobretudo Vicente Zey e Bonifácio van Germer.
Antônio Henrique Weitzel - A fome não espera pela fartura
Em nossas longas jornadas, costumávamos almoçar em casas de pessoas bondosas que se prontificavam em fornecer almoço para os jovens e famintos caminhantes. Isto aconteceu mais de uma vez na pacata cidadezinha de Jeceaba (MG), aquela cuja luz elétrica, naquele tempo, tinha a potência de uma vela de bolo de aniversário. A cidade ficava a mais de 20 quilômetros de Congonhas, trecho esse que percorríamos a pé, ida e volta.
Antônio Henrique Weitzel - Coroinhas da Glória dos anos 30 e 40
A turma era numerosa e animada. Havia o Rubinho (Rubens Báldi), o Zé Cunha, o Geraldo Saraiva, o Geraldo Santana, o Mário Pinto, o Francisco de Assis (mais ligado ao Colégio Santa Catarina), o Aloísio Faria, os dois irmãos Moraes (Paulo e Hélcio), os três irmãos Weitzel (Paulo, Antônio e João) e outros cujos nomes agora me escapam. Todos sob o comando do irmão Julião, ao depois coadjuvado pelo irmão Pancrácio. Variavam bastante a idade e os tamanhos. Daí não haver batina na medida certa para todos. Quem chegasse primeiro escolhia uma que servisse.
Antônio Henrique Weitzel - Piada de chefe
Não era costume do Diretor, o sisudo padre Gregório Wuts, ficar, na hora do recreio, no meio dos juvenistas, o que sempre ocorria com os padres sócios.
Antônio Henrique Weitzel - Pinga na missa
Quando veio da Holanda para o Brasil, passou por Congonhas. Lá, um belo dia, foi celebrar missa no Santuário do Senhor Bom Jesus, hoje Basílica. Na hora do ofertório, apesar da penumbra que envolvia o altar-mor, percebeu uma cor diferente no vinho que o coroinha estava despejando no cálice. E pensou: “Deve ser vinho branco”, que também era válido para a celebração.
Antônio Henrique Weitzel - A furiosa ´enfurecida`
Todo educandário que se preze tem uma banda de música, não só para aprimorar os dotes musicais de seus alunos, como, e principalmente, para abrilhantar as suas festas. O nosso Juvenato não seria uma exceção. Tínhamos uma boa banda de música, chamada carinhosamente por nós de “Furiosa”, composta de perto de 20 instrumentos de sopro e percussão.
Antônio Henrique Weitzel - Apareceu o discurso, olê, olê olá!...
Anualmente, o Juvenato se mobilizava para a festa do Padre Diretor. Ensaios e mais ensaios, a fim de que, no dia, tudo saísse a contento. Eram declamações, cantos, discursos, concertos de piano a duas e a quatro mãos, dobrados da “Furiosa” (a nossa banda de música) e, às vezes, até peças teatrais. Tudo no salão de festas, que era a sala de recreio, preparada para tal comemoração.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Coisas de padres e freiras... ´I Fioretti`
Como coroinha “titular” na capela do Colégio Santa Catarina, lembro-me de muitas estórias. Um delas. Acontecera, na cidade alguns roubos de vasos sagrados, com arrombamento de sacrários. 0s padres redentoristas eram os capelães do Colégio. Preocupado, Pe. Geraldo, com seus mais de 100 quilos e um vozeirão que dispensava muitos microfones, chamou a Irmã Gertrudes.
Antônio Henrique Weitzel - Heroísmo inútil
Num de nossos passeios, de volta para casa, partindo da cidadezinha de Burnier, já caminhávamos há mais de duas horas, quando chegamos às margens do Rio Maranhão, perto de Congonhas. Agrupamo-nos nas cabeceiras de uma ponte pênsil sustentada por cabos de aço, antes da travessia do rio. Eis que o padre sócio, que vinha no final da fila, falou preocupado: - Um menino ficou para trás (certamente para "tirar água do joelho") e ainda não retornou. Acontece que o garoto, o Birosquinha, já havia voltado e se integrado ao grupo, mas o padre não percebera.
Antônio Henrique Weitzel - As segundas-feiras de São Geraldo
Antigamente, a missa da Novena Perpétua de São Geraldo era celebrada no próprio altar do santo, às seis horas da manhã. Aliás, esse era o horário das primeiras missas do dia. Digo primeiras, porque não só se celebrava no altar-mor de Nossa Senhora da Glória, como, concomitantemente, nos quatro altares laterais: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Sagrado Coração de Jesus, Sagrada Família e São Geraldo. Havia celebrante e coroinha em número suficiente para todas essas missas ao mesmo tempo.
Antônio Henrique Weitzel - Os Extremos não se tocam
O aviso foi dado à noite: “Amanhã bem cedo, vamos cantar numa missa na capela da Fazenda do Pombal. O café será servido lá, após a missa.”
Antônio Henrique Weitzel - O Castigo da Gula
No mês de junho, entrávamos de férias. Mês gostoso das laranjas, mexericas e limas. Estávamos sempre visitando, a convite, as chácaras de pessoas amigas: ora na Fazenda São Simão, da dona Nora, irmão do bispo redentorista Dom Muniz, ora no sítio dos pais de nosso colega Juventino. Desta vez, fomos para a chácara dos pais de nosso colega André. O dia inteiro nos divertindo e chupando laranjas. Na volta, a gente costumava trazer nos bolsos uma ou duas laranjas, para serem chupadas na caminhada de volta ou então na penúria do dia seguinte.
Antônio Henrique Weitzel - O Coro X (Xis)
Quando chegavam os alunos novatos no Juvenato, eles eram testados pelo Padre Inácio – o maestro do coro – a fim de serem distribuídos pelas vozes: ou soprano (se conseguissem atingir notas mais agudas) ou contralto (se tivessem mais facilidade com as notas mais graves). Quem não fosse apto para uma delas, não fazia parte do coro: ficava no Coro Xis, isto é, de fora.
Antônio Henrique Weitzel - O Rio e o Tempo
As canções que se cantam na infância e também os poemas que se recitam no verdor dos anos jamais serão esquecidos. Esta é a verdade mais verdadeira que já ouvi.
Antônio Henrique Weitzel - Nos tempos do ´Lationário`
Eu ainda não completara sete anos e já estava inscrito como coroinha da Igreja da Glória. Eu e outros meninos de minha idade, que não sabíamos ainda as respostas latinas da missa, ficávamos de “estaca”, isto é, sem a responsabilidade de responder aos versículos e salmos do celebrante, que os coroinhas mais velhos e experientes assumiam.