Os empinadores de Papagaio - Antônio Henrique Weitzel
Setembro, mês do Jubileu, mês das férias, mês dos ventos soprando para cima; mês, pois, dos papagaios. Não daquelas aves psitaciformes palradoras, de bico de torquês e de língua escura, carnuda e córnea na superfície, o que lhes facilita imitar a fala humana. Sim, porque papagaio (do árabe: babaca – essa é boa!) não fala – isto é uma prerrogativa do ser humano – ele imita a fala humana, cujo som ele reproduz inconscientemente, sem saber o que está dizendo. Daí a nossa expressão: “falar feito um papagaio”, isto é, repetindo o que ouviu, mas sem compreender o sentido. Eu me refiro é aos papagaios de papel, aqueles feitos de papel de seda colorido, armados com varetas de bambu ou de taquara, e soltos ao vento, mas presos e controlados por uma linha segura na mão ágil de um garoto ou amarrada na cruzeta de sua manivela ou máquina (uma espécie de liberdade vigiada). O céu azul ficava, naquela época, coalhado de tanto papagaio, uns unicoloridos, outros multicoloridos, todos dançando ao sabor do vento, borboleteando lá nas alturas, coroando, flutuando ou embicando rápido para a terra, quando tinha cruzada a sua linha com a dos garotos da rua em combates aéreos que se tornaram famosos. Então não se falava em cerol, uma mistura de cola e vidro moído, para cortar a linha do adversário “extra muros”, e que hoje em dia se tornou perigosíssima, a ponto de degolar desprecavidos passantes. Valia era a destreza ou a linha mais forte ou a manivela mais possante. E também não tínhamos rixa alguma com os fios elétricos, porque a gente soltava papagaio era no grande pátio ao lado do prédio do Juvenato.
O Haroldo era um exímio empinador e laçador de papagaio e um verdadeiro ás da manivela, quando cruzava sua linha com a dos meninos de fora. Depois então que fabricou ele mesmo u’a máquina de um metro de altura e duas cruzetas inseridas uma na outra, com oito pontas para recolher a linha e tão pesada que ele tinha de apoiá-la no chão em lugar de fazê-lo na barriga como todos procediam com suas pequenas manivelas. E ainda por cima recebeu de seus pais em Belo Horizonte uma grossa linha trançada chamada de “cordonê”. Ao laçar o papagaio de algum moleque, girava a grande manivela com tal rapidez, que em dois tempos trazia para perto de si o próprio papagaio e o do adversário. Pegou muitos assim. Eu cheguei mesmo a ouvir um garoto gritando para o outro na rua: - “Não laça esse aí não, que ele está soltando papagaio com arame!...”
Mas isso não acabou bem. É que todas as terças e quintas-feiras saíamos a passeio nos arredores da cidade. Aproveitando a ausência, um grupo de garotos pulou o muro e roubaram vários papagaios e manivelas que ficavam guardados no quarto de sapatos do lado de fora da casa. Então o Padre Vítor, sócio na ocasião e que conhecia bem toda a meninada das imediações, levou consigo os “roubados” e foi de casa em casa recuperando os objetos surrupiados. Parece-me que, a partir daí, puseram fim nas batalhas aéreas.
Há muitos nomes para batizar esse brinquedo encantado que surgiu na China há mais de 3.000 anos. De lá foi para o Japão, a Índia, a Europa e chegou ao Brasil. A princípio tinha finalidades religiosas e militares, seja para os homens se comunicarem com os espíritos dos ares: os dragões (No meu tempo costumávamos amarrar na linha pedacinhos de papel como se fossem bilhetinhos com destino às alturas), seja como sinalização militar dando avisos (Isso ainda perdura nas favelas para alertar sobre batidas policiais, quando não são substituídos por foguetes). Foi também com uma chave amarrada na rabiola de uma pipa que Benjamin Franklin (1706-1790) empinou em 1752, durante uma tempestade, conseguiu demonstrar ser o raio uma descarga elétrica e inventou assim o pára-raios.
Entre os nomes de meu conhecimento, faço diferença entre eles pela armação das varetas que dá sustentação à folha de papel de seda nela colada. O papagaio tem o formato de dois triângulos unidos pela base, formando um quadrado colado em duas varetas superpostas como se fossem arco e flecha. A pipa tem o formato de um retângulo em cima de um triângulo de vértice para baixo. O papel vem colado sobre uma armação de três varetas: uma grande na vertical e duas menores na horizontal amarradas separadas uma da outra e formando uma cruz de quatro braços. A arraia tem o formato de um polígono de seis lados (= hexágono), parecendo arredondada como o peixe que lhe deu o nome. O papel vem colado sobre uma armação de três varetas de igual tamanho e amarradas no centro para formar seis pontas. Deve ter um cabresto bem calculado e uma rabiola bem pesada, porque, do contrário, não pára de dar cabeçadas.
Sei também de outros nomes que jamais usei, como: pandorga, curica, cafifa, pião, zoeira, patacho. Devem ser regionais. Mas, em Congonhas, nós empinávamos mesmo era papagaio. As férias corriam rápidas: horas e horas entretidos naquela diversão encantada.
Ah! Meu Deus!... Por que que eu parei de soltar papagaio?!...
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Leitura à mesa - Antônio Henrique Weitzel
Durante as refeições (almoço e jantar) era costume no Juvenato (como, aliás, em todas as casas religiosas) que, enquanto todos se alimentavam, um juvenista, previamente escalado, fazia em voz alta uma leitura espiritual, assentado em uma cátedra encostada numa parede bem no centro do refeitório.
Manga-sapatinho x manga-coquinho - Antônio Henrique Weitzel
A Congonhas do meu tempo era uma cidade coberta de mangueiras, e os terrenos do Santuário, do Convento e do Seminário não podiam deixar de tê-las. Esta árvore frutífera, de porte geralmente elevado e de densa folhagem, que chega a impedir o nascimento de qualquer outra planta, mesmo capim, debaixo de sua copa, é originária da Índia (donde o seu nome científico: Mangífera Índica, Lineu).
Antônio Henrique Weitzel - Bocejo contagioso
Depois de algum tempo no Brasil, aprendendo a língua portuguesa, o padre Canísio foi designado para ser professor de História Sagrada no Juvenato. Ainda muito inseguro no falar a língua portuguesa, o risonho sacerdote começou o seu trabalho junto à meninada.
Antônio Henrique Weitzel- Cidade sem calças
Padres redentoristas, recém-chegados da Holanda, costumavam tirar as primeiras semanas no Brasil, para visitarem todas as casas da então Vice-Província do Rio de Janeiro.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Questão de imagens
As Irmãs de Santa Catarina acabaram de construir a belíssima capela. Um pouco destoante do conjunto arquitetônico do Colégio, como me falou o Pe. Bonifácio van Germert, mas bela, funcional, ampla. No primeiro momento, sem imagem alguma, talvez porque o artista que as estava fazendo não concluíra seu trabalho.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Liga católica
Era maravilhosa, no quarto domingo de cada mês, a reunião da Liga Católica de nossa Igreja da Glória. Às duas horas da tarde, com seus prefeitos e estandartes de cada seção, a igreja ficava cheia. Perto de 1000 homens maduros e de fé. E ninguém dormia, apesar da hora, pois a movimentação era intensa e os cânticos vibrantes: “Viva Jesus, a nossa Liga o brada. Viva Jesus, a nossa Liga o quer.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Dona Gertrudes, a catequista
Quem não a conheceu na Paróquia desde a segunda década do século passado até os anos 80? Catequista de todos nós, no quintal de sua casa na rua dos Artistas. Ali aprendíamos sobretudo um amor muito grande à Eucaristia. Ela sabia lidar com as crianças, servente que era do Jardim da Infância Mariano Procópio. Tinha uma profunda vida espiritual, alicerçada na oração, que aprendera com os Redentoristas, sobretudo Vicente Zey e Bonifácio van Germer.
Antônio Henrique Weitzel - A fome não espera pela fartura
Em nossas longas jornadas, costumávamos almoçar em casas de pessoas bondosas que se prontificavam em fornecer almoço para os jovens e famintos caminhantes. Isto aconteceu mais de uma vez na pacata cidadezinha de Jeceaba (MG), aquela cuja luz elétrica, naquele tempo, tinha a potência de uma vela de bolo de aniversário. A cidade ficava a mais de 20 quilômetros de Congonhas, trecho esse que percorríamos a pé, ida e volta.
Antônio Henrique Weitzel - Coroinhas da Glória dos anos 30 e 40
A turma era numerosa e animada. Havia o Rubinho (Rubens Báldi), o Zé Cunha, o Geraldo Saraiva, o Geraldo Santana, o Mário Pinto, o Francisco de Assis (mais ligado ao Colégio Santa Catarina), o Aloísio Faria, os dois irmãos Moraes (Paulo e Hélcio), os três irmãos Weitzel (Paulo, Antônio e João) e outros cujos nomes agora me escapam. Todos sob o comando do irmão Julião, ao depois coadjuvado pelo irmão Pancrácio. Variavam bastante a idade e os tamanhos. Daí não haver batina na medida certa para todos. Quem chegasse primeiro escolhia uma que servisse.
Antônio Henrique Weitzel - Piada de chefe
Não era costume do Diretor, o sisudo padre Gregório Wuts, ficar, na hora do recreio, no meio dos juvenistas, o que sempre ocorria com os padres sócios.
Antônio Henrique Weitzel - Pinga na missa
Quando veio da Holanda para o Brasil, passou por Congonhas. Lá, um belo dia, foi celebrar missa no Santuário do Senhor Bom Jesus, hoje Basílica. Na hora do ofertório, apesar da penumbra que envolvia o altar-mor, percebeu uma cor diferente no vinho que o coroinha estava despejando no cálice. E pensou: “Deve ser vinho branco”, que também era válido para a celebração.
Antônio Henrique Weitzel - A furiosa ´enfurecida`
Todo educandário que se preze tem uma banda de música, não só para aprimorar os dotes musicais de seus alunos, como, e principalmente, para abrilhantar as suas festas. O nosso Juvenato não seria uma exceção. Tínhamos uma boa banda de música, chamada carinhosamente por nós de “Furiosa”, composta de perto de 20 instrumentos de sopro e percussão.
Antônio Henrique Weitzel - Apareceu o discurso, olê, olê olá!...
Anualmente, o Juvenato se mobilizava para a festa do Padre Diretor. Ensaios e mais ensaios, a fim de que, no dia, tudo saísse a contento. Eram declamações, cantos, discursos, concertos de piano a duas e a quatro mãos, dobrados da “Furiosa” (a nossa banda de música) e, às vezes, até peças teatrais. Tudo no salão de festas, que era a sala de recreio, preparada para tal comemoração.
Francisco de Assis Martins Ribeiro - Coisas de padres e freiras... ´I Fioretti`
Como coroinha “titular” na capela do Colégio Santa Catarina, lembro-me de muitas estórias. Um delas. Acontecera, na cidade alguns roubos de vasos sagrados, com arrombamento de sacrários. 0s padres redentoristas eram os capelães do Colégio. Preocupado, Pe. Geraldo, com seus mais de 100 quilos e um vozeirão que dispensava muitos microfones, chamou a Irmã Gertrudes.
Antônio Henrique Weitzel - Heroísmo inútil
Num de nossos passeios, de volta para casa, partindo da cidadezinha de Burnier, já caminhávamos há mais de duas horas, quando chegamos às margens do Rio Maranhão, perto de Congonhas. Agrupamo-nos nas cabeceiras de uma ponte pênsil sustentada por cabos de aço, antes da travessia do rio. Eis que o padre sócio, que vinha no final da fila, falou preocupado: - Um menino ficou para trás (certamente para "tirar água do joelho") e ainda não retornou. Acontece que o garoto, o Birosquinha, já havia voltado e se integrado ao grupo, mas o padre não percebera.
Antônio Henrique Weitzel - As segundas-feiras de São Geraldo
Antigamente, a missa da Novena Perpétua de São Geraldo era celebrada no próprio altar do santo, às seis horas da manhã. Aliás, esse era o horário das primeiras missas do dia. Digo primeiras, porque não só se celebrava no altar-mor de Nossa Senhora da Glória, como, concomitantemente, nos quatro altares laterais: Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, Sagrado Coração de Jesus, Sagrada Família e São Geraldo. Havia celebrante e coroinha em número suficiente para todas essas missas ao mesmo tempo.
Antônio Henrique Weitzel - Os Extremos não se tocam
O aviso foi dado à noite: “Amanhã bem cedo, vamos cantar numa missa na capela da Fazenda do Pombal. O café será servido lá, após a missa.”
Antônio Henrique Weitzel - O Castigo da Gula
No mês de junho, entrávamos de férias. Mês gostoso das laranjas, mexericas e limas. Estávamos sempre visitando, a convite, as chácaras de pessoas amigas: ora na Fazenda São Simão, da dona Nora, irmão do bispo redentorista Dom Muniz, ora no sítio dos pais de nosso colega Juventino. Desta vez, fomos para a chácara dos pais de nosso colega André. O dia inteiro nos divertindo e chupando laranjas. Na volta, a gente costumava trazer nos bolsos uma ou duas laranjas, para serem chupadas na caminhada de volta ou então na penúria do dia seguinte.
Antônio Henrique Weitzel - O Coro X (Xis)
Quando chegavam os alunos novatos no Juvenato, eles eram testados pelo Padre Inácio – o maestro do coro – a fim de serem distribuídos pelas vozes: ou soprano (se conseguissem atingir notas mais agudas) ou contralto (se tivessem mais facilidade com as notas mais graves). Quem não fosse apto para uma delas, não fazia parte do coro: ficava no Coro Xis, isto é, de fora.
Antônio Henrique Weitzel - O Rio e o Tempo
As canções que se cantam na infância e também os poemas que se recitam no verdor dos anos jamais serão esquecidos. Esta é a verdade mais verdadeira que já ouvi.
Antônio Henrique Weitzel - Nos tempos do ´Lationário`
Eu ainda não completara sete anos e já estava inscrito como coroinha da Igreja da Glória. Eu e outros meninos de minha idade, que não sabíamos ainda as respostas latinas da missa, ficávamos de “estaca”, isto é, sem a responsabilidade de responder aos versículos e salmos do celebrante, que os coroinhas mais velhos e experientes assumiam.