Às terças com Padre João
Quando ouvi, nas últimas homenagens ao padre João Fagundes Hauck, as muitas referências ao seu gosto pela vida e pelo viver, aquela imensa capacidade de colorir os saberes com humor e criticar com ironia as coisas que lhe pareciam erradas, acabei pensando em mim mesmo, por ter tido a ventura de, na noite das terças-feiras, estar com ele no Instituto Santo Tomás de Aquino. Ouvidas as palestras, íamos à mesa para o chá, tradição instituída por Joaquim Ribeiro de Oliveira. Nossas cadeiras eram vizinhas, o que muitas vezes me permitiu ouvir coisas em tom de segredo, como versões pouco ortodoxas das mazelas dos políticos. Ria-se muito, e foi graças a ele que as noites do chá se estendiam muito além do tempo convencional. A conversa se arrastava, vencia os ponteiros, até que padre João se levantava, dizendo que havia chegado seu Mercedes, com motorista, que o levaria de volta à Glória. Explicava logo que se tratava de um desses ônibus Mercedes que subiam a Andradas.
Em uma daquelas noites, lembro-me bem, falou-se sobre a semelhança entre o governante inútil e o biscoito de polvilho, que acompanha nosso chá. Ambos, dizia ele, fazem muito barulho, não são doces nem salgados e jamais satisfazem...
Há passagens notáveis, como aquela vez em que sofreu um acidente ofídico. Todos nós amaldiçoando a cobra, e ele a defendê-la com vigor: “O que eu tinha de invadir o terreno dela?”, dizia, absolvendo a agressora.
Em uma outra rodada de conversa, falava-se sobre a morte, fatalidade de que ninguém haverá de escapar. Padre João também não pretendia escapar dela, mas havia acertado com Deus para que não desse pressa a ela e a atrasasse o máximo possível...
No Santo Tomás, coube a ele ministrar cursos sobre os fundamentos do Cristianismo e da Igreja Católica Apostólica Romana, que andaram por caminhos nem sempre coincidentes. Com a mesma sinceridade, comprometido com a verdade dos fatos e da História, ele falava das vitórias e dos tropeços da cristandade. Em sua última aula, analisou com sabedoria o século 18, “paupérrimo para a Igreja”, quando, na verdade, o que se salvou para nós foram Afonso Ligório no campo da Moral, e Bento XIV no Direito Canônico.
Na terça-feira seguinte à sua morte falaria sobre o Ano Paulino. Não deu, por vontade de Deus.
Quando se apaga uma vida como essa, nasce na gente a vontade de desistir, de desacreditar. E no caso do padre João só não cedemos porque ele próprio reagiria ao desânimo: “É preciso caminhar e morrer para se chegar à Ressurreição, porque sem ela nada faz sentido”, como o ouvi dizer, certa vez, na encomendação do corpo de um amigo comum. Pois o que disse para outro para ele também digamos agora.
Wilson Cid
Membro do Instituto Santo Tomás de Aquino
Diretor de Jornalismo do Jornal JF Hoje
“Estamos de luto. Pe. João Fagundes passou dessa vida para o paraíso. Inteligência de gênio e voltada para o bem cristão. Era unanimidade. Nas horas difíceis, nos becos sem saída, era ele acionado e tudo voltava ao normal. Lembro-me perfeitamente, lá nos idos de 1959, no Seminário Santo Afonso, Juniorato de Congonhas, ao lado da Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Crise de fé e disciplina decaindo. Pe. Geraldo Lima buscou o Pe.João e ele pregou-nos o retiro, naquela época de três dias, onde se pregava em sequência sobre a morte, o juízo particular e sobre o inferno ou paraíso. Falou-nos descontraídamente e sem nos intimidar ou ameaçar, e tudo voltou à normalidade do nosso metódico dia a dia. Bons tempos aqueles em que aprendíamos que o ser humano é o templo do Espírito Santo, portanto a moradia da Santíssima Trindade e, por isso, não poderíamos ofender este templo. Outra: ora et labora; outra: não devais nada a ninguém a não ser o amor-cristão; e mais outra: quem não trabalha não merece comer. São pilares da religião católica e que jamais deixarão de existir. Adeus, Padre João. Um dia nos encontraremos e peço a Deus que estejamos no mesmo local, o paraíso. Obrigado por tudo. “
(Lindorico Guerra Júnior - por e-mail)
“Quero expressar meus sinceros sentimentos de solidariedade cristã pela passagem de nosso professor para a eternidade. Muito aprendi com o Professor João Fagundes nas aulas de Ecumenismo. Ele dizia: “só se faz ecumenismo com o que une; o que desune não serve, só impede o diálogo ecumênico”. E ele parte na semana da unidade. Descanse em paz, Pe. João.”
(Padre José de Anchieta - Juruti (PA)- por email)
“É com muita tristeza que fiquei sabendo do falecimento do nosso querido Pe João. Impossibilitada de comparecer ao seu enterro, venho agradecer a Deus pela vida do nosso querido Pe João. Que Deus o receba em sua glória, que possa interceder por nós junto a Deus. Obrigada, Pe João, por tudo que o senhor representou em minha vida e do meu filho Thiago, principalmente quando foi lobinho. O céu está alegre com a sua presença. “
(Maria das Graças de Oliveira)
“Hoje os anjos estão de braços abertos para receber e encaminhar nosso querido Padre João Fagundes até o aconchego do Pai celeste. Nós, paroquianos, estamos condolentes a todos os familiares e amigos mais próximos deste ilustre ser humano, que durante sua estadia entre nós passou o carisma e amor existente em seu ser. Nós, como cristãos, sabemos que a morte não é o fim, e sim o começo. Por isso, nesse momento, tenhamos consciência que sentiremos saudades, mas não deixaremos a tristeza invadir nossos corações.”
(Kátia Adriana Teixeira de Oliveira - por e-mail)